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Vida no escritório: existe almoço grátis no pós-pandemia?

  • 1 de dez. de 2022
  • 4 min de leitura

Atualizado: 11 de dez. de 2022

Existirá um novo modelo de relação empresa-funcionário mais equilibrado? O que fazer​ ​com os mega escritórios coloridos no pós pandemia?

Escrito por Bruno Rebouças e originalmente publicado no site Update Or Die.


Escritórios incríveis, coloridos, com comidas grátis, chefs de cozinha particulares, mesas de ping-pong, cervejas artesanais no happy-hour semanal, video-games, áreas de descanso, aulas de Yoga, vestiários para banho com shampoos incríveis e biodegradáveis e até espaço para o seu pet “trabalhar” ao seu lado.



As ditas melhores empresas para se trabalhar do mundo, quase todas seguiram à risca​ ​esse modelo e se tornaram objeto de desejo de uma geração de trabalhadores. O movimento​ ​nascido com as big-tech do Vale do Silício tomou o mundo. Google, Facebook, Microsoft, Amazon e Salesforce são exemplos de empresas pioneiras na revolução dos ambientes corporativos, que historicamente seguiam a linha de ambientes mais neutros, formais e corporativos. Os escritórios foram redesenhados pensando em fazer com que os funcionários passassem o máximo de tempo possível por alí, não apenas trabalhando mas se alimentando, se divertindo, se exercitando, socializando e até mesmo descansando. Com um pouco mais de tempo, suspeito que o modelo iria evoluir para ter​ ​“benefícios” como a sua própria cama caso tivesse que dormir por lá em dias onde aquele projeto importante atrasou e você teve que trabalhar até mais tarde. Sim, o próprio Google e o Facebook (agora Meta) são exemplos de empresas que já possuíam os chamados “Nap Rooms” ou quartos de descanso dentro dos escritórios, alguns com camas, travesseiros e despertadores. No Brasil, não apenas as gigantes de tecnologia americanas mas o argentino MercadoLivre seguiu à risca a tendência e tem seu escritório sede na cidade de São Paulo autointitulado de MeliCidade. O nome evidencia a ambição por trás do movimento: com tantas facilidades disponíveis, o escritório é realmente uma verdadeira cidade, que oferece tudo para que você não precise sair de lá. Mas aí veio a pandemia. E depois do susto inicial de ter estes maravilhosos escritórios​ ​fechados por meses e operar de forma 100% remota por um período muito mais longo do que qualquer um poderia imaginar, vivemos agora o período do retorno ao trabalho​ ​presencial. Para além das intermináveis discussões sobre o modelo híbrido ideal e maiseficiente, o fato é que muita coisa relacionada às expectativas e prioridades dos​ ​funcionários mudou. Os tempos são outros.​ ​Distintas pesquisas mostram que a maioria das pessoas se acostumou ao trabalho remoto e​ ​que não houve nenhum tipo de redução de produtividade atrelada ao novo modelo.​ ​Nesse novo cenário, já não é mais unânime que as refeições “grátis” façam tanto sucesso​ ​como antes. A comida preparada em casa, com a família e desfrutada de forma cômoda e​ ​lenta, despontou como uma opção mais atraente para muita gente. A estação de trabalho​ ​super equipada com sala própria e posição privilegiada no escritório parece não ser tão boa​ ​quanto a cadeira-gamer recém instalada no conforto do escritório de casa, que agora já​ ​conta com vários monitores, decoração própria e todo o tipo de comodidades.​ O dresscode corporativo bastante informal que antes era visto como sinônimo de empresa​ ​moderna, atingiu outro nível no trabalho remoto. A possibilidade de levar o seu pet para os escritórios alguns dias por semana não consegue superar o prazer de poder tê-lo ao seu​ ​lado todos os dias, inclusive durante reuniões em home-office.​ ​Mas e então, o que fazer com as verdadeiras cidades-escritório já construídas? O que fazer​ ​com toda uma política de benefícios pensada, testada, orçada e estruturada durante anos? Parece que o trabalho começou a voltar ao seu lugar: o de trabalho. Não o de academia,​ ​não o de restaurante, não o de bar e nem de “centro mindfulness”. Isso tudo sempre existiu​ ​fora das paredes do escritório, oferecido de distintas formas nas grandes cidades e, quase​ ​sempre, podem ser desfrutados facilmente pelos funcionários dessas empresas. Caso o queiram. Ou não.​ ​Mas isso tudo custa caro, e a empresa me dava isso de graça? Pois bem… Sinto muito​ ​informar, mas o bordão cliché era verdade: não existe almoço grátis! Todas essas​ ​​mordomias sempre tiveram um custo. Um custo alto, porém invisível aos olhos dos​ ​funcionários. Um custo para as empresas que financiavam e um custo para os funcionários, que recebiam (ou ainda recebem) parte da sua remuneração na forma desses benefícios.​ ​Sejam eles utilizados ou não.​ ​Paralelamente aos novos interesses e demandas dos funcionários, vivemos um momento​ ​econômico global no mínimo complicado, forçando empresas do mundo todo a buscarem​ ​maior eficiência financeira. Talvez exista aí uma oportunidade para uma nova dinâmica na​ ​relação empresa-funcionário. Uma dinâmica que contemple os (novos) interesses de ambas​ ​as partes. Não seria mais adequado pensar em reverter parte desses benefícios em​ ​pagamento direto para os empregados (leia-se maiores salários)? Segundo pesquisas, em todo o mundo, a maioria dos funcionários da nova economia não​ ​quer retornar ao escritório de forma tão frequente como antes. Se vamos ter menos gente nos escritórios-cidade, e se os funcionários estão mais interessados em atividades pessoais​ ​fora do escritório, o mínimo esperado é que o tamanho desses espaços seja reduzido, e que a oferta de benefícios seja adaptada. Um novo modelo possível incluiria menos refeições gourmet no escritório e a conversão dos​ ​valores equivalentes em maiores salários. Mais liberdade de formatos e locais de trabalho, porém com maior compromisso com performance e produtividade nas entregas individuais.​ ​E, quem sabe, uma relação mais saudável e equilibrada entre empresas e funcionários, com menos ilusão de que existem almoços grátis.

 
 
 

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