Líderes em crise: Quem cuida de quem cuida?
- Bruno Rebouças

- 29 de nov. de 2023
- 2 min de leitura
Coloque a máscara de oxigênio primeiro em você.

Gerir equipes tem se tornado uma tarefa extraordinariamente complexa nos últimos tempos. Discussões ferrenhas sobre a volta do trabalho presencial, uma pressão cada vez maior por resultados, receios em relação à automação de algumas atividades somadas às recentes demissões em massa deste ano, tem deixado os profissionais cada vez mais ansiosos. Com essa ansiedade vem uma série de desafios internos, afastamentos por causas de saúde, burnouts e queda de performance.
Atualmente, o papel do líder de equipes está menos centrado em questões técnicas do trabalho em si e mais voltado para apoiar os membros da equipe de maneiras mais "sutis" e emocionais. Fala-se muito em segurança psicológica, confiança e saúde mental como pilares fundamentais para equipes de alta performance.
De forma menos simplista, é preciso assumir que o líder de pessoas contemporâneo além de ter que desenvolver uma nova gama de habilidades emocionais bastante grande, também tem sido demandado a atuar de forma intensa, frequente e, por vezes urgente. Qualquer desafio emocional, de performance ou de comunicação interna recai imediatamente sobre estes gestores. E estes desafios têm sido cada vez mais frequentes. As mazelas de um mundo mais dinâmico.
A psicodinâmica estuda o conceito de "container" de W. Bion como sendo a função realizada por um indivíduo que provê amparo a outro, que escuta, recebe projeções e consegue digeri-las e devolvê-las de uma forma mais palatável. A mãe com seu filho e o terapeuta com seu paciente são exemplos claros de "containment". Um bom líder também deveria atuar com o seu time seguindo essas premissas. Pressupõe-se confiança e um espaço de fala aberto, transparente e sem julgamentos.
Diversas pesquisas apontam como esse tipo de espaço de troca, quando bem mantido, gera efeitos positivos no desenvolvimento de equipes, resultando em aumento da performance do grupo. Em um mundo corporativo cada vez mais instável, as pessoas precisam falar, trocar e serem ouvidas por alguém de confiança.
No entanto, quem cuida e acolhe esses líderes, tão demandados para cuidar dos outros? Quem está lá para cuidar de quem cuida? Observa-se um esgotamento generalizado desses profissionais em um momento em que a necessidade de cuidado, escuta e "containment" das equipes parece ter crescido exponencialmente.
"Coloque a máscara de oxigênio primeiro em você", já diria o conhecido protocolo de segurança aéreo. O mundo corporativo passa por situações complexas e demanda cada vez mais de líderes de pessoas. É importante ter consciência de que estes líderes também precisam de ajuda, de cuidado e de escuta para, só então, poderem se propor a ajudar os outros.
Em um mundo que exige cada vez mais dos líderes, será que estamos verdadeiramente investindo no desenvolvimento de suas habilidades emocionais e no cuidado com sua própria saúde mental? Ao negligenciar o bem-estar dos gestores, não estaríamos comprometendo a eficácia e a saúde de toda a equipe?
Bruno Rebouças é sócio da Swell Advisors, psicanalista, mestrando em change-management e psicodinâmica de grupos no INSEAD na França, surfista, kitesurfista, piauiense e leitor ávido.



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