Existe lugar para a subjetividade no mundo empresarial moderno?
- Bruno Rebouças

- 11 de abr. de 2023
- 3 min de leitura
Poderá o ser-humano ser mais humano e menos máquina no mundo corporativo?
O conceito de subjetividade passa pela forma como cada indivíduo elabora sua própria percepção da realidade, do contexto ao seu redor e de si próprio. Para a psicanálise, a subjetividade é um campo flexível, dinâmico e singular a cada sujeito, a depender de experiências pessoais passadas, vivências, medos, traumas, conquistas, angústias, relacionamentos e todo tipo de vivência individual. É algo vivo.
Falar de subjetividade é, portanto, falar de um campo rico, multifacetado, único, reflexivo e criativo. Falamos de arte, falamos de emoções, falamos de relacionamentos, de pessoas, de músicas, de sensações, de memórias, de criatividade individual e de conexões não óbvias. Existe espaço para toda essa riqueza no mundo empresarial moderno?

Em um cenário econômico, político e social conturbado, grandes empresas parecem se apoiar cada vez mais em lógicas simplistas e binárias para as tomadas de decisões. Em tempos de escassez de capital e juros altos, a subjetividade é frequentemente suprimida em nome da objetividade e eficiência (ou pelo menos uma ilusão de suposta eficiência).
A riqueza de tantos indivíduos de um time é frequentemente medida por métricas puramente numéricas em avaliações de desempenho. Hierarquias rígidas limitam as possibilidades de atuação em escopos mais amplos e diversos. Trabalhadores de determinadas indústrias passam a se utilizar todos de um mesmo jargão, recheado de palavras em Inglês mesmo fora do ambiente de trabalho e para se referir a todo tipo de tema. Estamos matando a subjetividade.
Estamos matando a subjetividade também quando como indivíduos cedemos ao apelo neoliberal moderno acreditando que existem as ditas "melhores empresas para se trabalhar" (melhor para quem?), quando reduzimos o ciclo social à um mesmo grupo homogêneo de pessoas da empresa empregadora, quando nos trancamos em um escritório entre quatro paredes em casa ou na empresa por dezenas de horas por semana ou quando acreditamos que a promoção, o aumento ou o cargo novo nos farão pessoas felizes.
Não seria a felicidade subjetiva? O que faz um indivíduo feliz está ligado exatamente às sensações e sentimentos únicos causados em nós, no nosso campo simbólico. Ser feliz está ligado à subjetividade e, portanto, ambientes que comprimem o campo subjetivo, são obstáculos à jornada em direção à satisfação pessoal.
Na ânsia por resultados rápidos, o mundo empresarial supervaloriza a eficiência, a precisão e o pensamento objetivo em detrimento do subjetivo e do simbólico. Essa lógica pode estar por trás da crescente onda de perda do senso de identidade e de propósito dos trabalhadores nas empresas, gerando diversos tipos de desafios corporativos ligados à perda de profissionais qualificados, que muitas vezes já não se engajam ou não toleram seus trabalhos.
Não incorporar o aspecto subjetivo no mundo empresarial vem causando desafios diversos no gerenciamento de equipes, retenção de talentos e capacidade de inovar. Por vezes, as lógicas corporativas parecem almejar que funcionários operem como máquinas: funcionando em horários definidos, seguindo diretrizes cada vez mais rígidas, funcionando em uma linguagem padrão e sem espaço para quaisquer tipos de desvio do objetivo configurado. Estamos matando a subjetividade.
Em tempos de euforia ao redor das inovações tecnológicas, Inteligência Artificial, dados e automações, o mundo corporativo parece que se encantou com a precisão e performance das máquinas e se desencantou com a complexidade dos humanos. Até mesmo a produção de arte começa a ser delegada para sistemas que produzem imagens com base em comandos. Enquanto isso, artistas independentes seguem passando dificuldades e sendo pouco valorizados.
Na lógica da competição ferrenha, não temos como competir com as máquinas em objetividade, precisão e performance, é uma batalha desleal. Como humanos, porém, somos imbatíveis quando se trata de emoção, de sentimento, de diálogo, de crítica, de diversidade e criatividade. Ganhamos quando somos mais indivíduo e menos máquina. Ganhamos com a subjetividade.
Bruno Rebouças é sócio da Swell Advisors, psicanalista, mestrando em change-management e psicodinâmica de grupos no INSEAD na França, surfista, kitesurfista, piauiense e leitor ávido.



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